Chicago, 1988 – Tacada milionária!
Chicago, 1988 – Tacada milionária!
Por Ivan Sant’Anna – 08/06/2026
Tal como escrevi numa carta recente, em 1987 eu tinha certeza de que a Bolsa de Valores de Nova York sofreria um crash. Mas, infelizmente, dormi no ponto e deixei a oportunidade escapar.
Poderia ter ganhado uma fortuna comprado em puts (opções de venda) do S&P 500, índice futuro de ações americanas negociado em Chicago, com vencimento em dezembro daquele ano.
É bom esclarecer que não perdi um centavo na queda da Bolsa. Mas, para um trader profissional, como era o meu caso, deixar de ganhar equivalia a perder.
Na época, pensei seriamente em abandonar a profissão, que já exercia havia 29 anos. Só não o fiz porque, operar nos diversos mercados de renda fixa e variável, era a única coisa que eu sabia fazer.
No primeiro semestre do ano seguinte, 1988, fui contratado pela Cia. Vale do Rio Doce (atual Vale) para dar assessoria no mercado internacional de moedas.
Como a empresa (então estatal) tinha boa parte de seu faturamento em ienes japoneses e devia em dólares, minha função era orientá-la sobre como fazer operações de hedge na IMM (International Money Market), uma divisão da Chicago Mercantile Exchange.
Numa de minhas visitas à sede da Vale, no Rio de Janeiro, o presidente da empresa, Wilson Nélio Brumer, me contratou para ir a Londres estudar a possibilidade da companhia obter um gold loan com banqueiros da City.
Gold loans, tal como diz o nome, são empréstimos feitos a mineradores de ouro, tendo como garantia a produção futura.
À época a Cia. Vale do Rio Doce explorava jazidas auríferas no estado do Pará.
Trato feito, viajei para Londres. Na capital inglesa, me encontrei com diversos banqueiros. Quase todos acharam a operação teoricamente vantajosa, mas disseram que não podiam fazê-la por causa do Risco Brasil – o governo Sarney suspendera os pagamentos dos juros da dívida externa, uma forma de moratória não declarada oficialmente.
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Em vez de voltar diretamente da Inglaterra para o Brasil, resolvi cruzar o Atlântico Norte e dar um pulo em Chicago, onde ficava o escritório da Shearson Lehman Brothers, corretora da qual eu era foreign broker (corretor não residente no país).
Tal como sempre fazia quando visitava a Shearson, conversei com diversos analistas. Um deles, o meteorologista Jon Davis, chamou minha atenção para um evento climático que poderia influenciar o preço de diversas commodities agrícolas, principalmente os grãos.
Tudo indicava, segundo Davis, que o fenômeno La Niña (esfriamento das águas do Oceano Pacifico) iria ocorrer no verão daquele ano.
Outros La Niña anteriores haviam provocado seca no Corn Belt (Cinturão do Milho), como é conhecido o Meio-Oeste americano.
Voltei empolgado para o Brasil, escolhi o mercado de soja como alvo e fiquei observando as cotações.
O contrato futuro de Soja com vencimento em Novembro de 1988 vinha sendo negociado entre seis e sete dólares por bushel (unidade de peso equivalente a 27,21 kg).
Minha carteira pessoal estava com caixa baixo naquela ocasião. Mas eu operava contas de dois clientes bem abonados, que me deixavam “treidar” discricionariamente.
Quando o mercado rompeu a resistência psicológica dos US$ 7,00, entrei comprando.
Não deu nem para sofrer. No dia da compra, a Soja Novembro já fechou em limite de alta. Melhor: o ajuste positivo daquele pregão foi maior do que a margem de garantia que deveríamos depositar. Ou seja, ninguém pôs dinheiro na mesa. O lucro percentual seria infinito.
Como nunca se sabe até onde um bull market pode ir, decidi, aleatoriamente, vender, para cada uma das duas contas, 1/3 dos contratos a US$ 8,00, 1/3 a US$ 9,00 e 1/3 a US$ 10,00.
Na Parte 2 de meu livro Os Mercadores da Noite, publicado em 1996, o personagem principal, Julius Clarence, ganha uma fortuna num bull market futuro de soja.
É lógico que, para escrever este trecho de minha ficção, me baseei naquela tacada real de 1988. Vejam como descrevi, no livro, o episódio:
“Poucas pessoas, além de Julius Clarence e de alguns espertos especuladores da Bolsa de Chicago, conseguiram prever a seca daquele ano. No quadrilátero entre os Grandes Lagos, ao Norte, as montanhas Apalaches, a Leste, os campos de Oklahoma, ao Sul, e as Montanhas Rochosas, a Oeste, foram registrados os menores índices pluviométricos desde que os índices começaram a ser medidos.
Nos normalmente férteis campos de Iowa, Illinois, Indiana e Missouri, as plantações simplesmente não se desenvolviam. Os fazendeiros olhavam desolados para as vagens secas e esturricadas, procurando ao longe, no horizonte, alguma nuvem anunciando a chuva. Mas esta não chegava. Devido à primavera chuvosa, as raízes das plantas haviam se aprofundado pouco no solo. Não conseguiam, agora, absorver o pouco de umidade existente embaixo da terra.
Se não havia chuva, pior era o calor. Temperaturas só atingidas no Dust Bowl em 1934 eram registradas todos os dias. As nuvens de pó escondiam a paisagem desolada. A água foi racionada em Minneapolis, Saint Paul, Omaha, Kansas City e Saint Louis. As pessoas ficavam em casa, deitadas junto ao ventilador, sem ânimo para o trabalho. Em Chicago, à noite, a população levava suas cadeiras para as ruas, tentando refrescar-se com a brisa vinda do Lago Michigan.
…
No final de agosto e início de setembro, o mercado foi tomado por uma onda especulativa sem igual. Todo mundo comprava soja a futuro. Até os mensageiros do pregão de Chicago apostavam suas economias no mercado. Da Costa Leste, o pessoal de Nova Iorque, geralmente mais ligado ao mercado de ações de Wall Street, começou a jogar na Bolsa de Chicago. Os boletins de meteorologia eram lidos avidamente pelos especuladores. Boatos davam conta de que iria faltar soja no final da temporada e os Estados Unidos, acreditem, seriam forçados a importar o produto da América do Sul e, até mesmo, da Europa.”
Uma coisa que aprendi nos longos anos nos quais fui broker, é que os especuladores são muito mais corajosos no prejuízo do que no lucro.
Quando a Soja Novembro começou a bater limite de alta após limite de alta, fui pressionado para realizar o lucro.
Não cedi. Tal como planejara, vendi um terço dos contratos a oito, um terço a nove e um terço a dez.
A cotação ainda chegou a US$ 10,83 antes de cair.
Sem que tivessem aplicado um centavo sequer, cada um dos clientes ganhou 900 mil dólares na operação. Novecentos mil de 1988, bem entendido, que equivalem hoje a US$ 3.533.000,00.
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Ao longo dos 37 anos nos quais trabalhei na linha de frente do mercado financeiro, acho que aquele bull market de soja foi o meu melhor momento.
Embora não tenha obtido um lucro direto na operação, a performance fee (taxa de sucesso, que no mercado os corretores brasileiros chamavam de “bicho”) que recebi dos meus clientes me permitiu comprar um novo apartamento, carro 0 km, além de outras benesses.
Mas o melhor de tudo foi ter readquirido a confiança em meu taco, confiança essa sem a qual ninguém consegue se equilibrar na corda bamba do mercado financeiro.
Um abraço e até a próxima semana,
Ivan Sant’Anna
P.S.: Caso esteja chegando agora, você pode ler algumas das cartas anteriores do Ivan pelos links abaixo:
As Copas que eu vi e ouvi
A grande farra da Bolsa
Uma civilização inteira morrerá esta noite!
Pane seca na aviação
Tiroteio em Washington, DC
Investidores e especuladores
A vida aos 86
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