Tiroteio em Washington, DC.
Tiroteio em Washington, DC.
02/05/2026
Por Ivan Sant’Anna
“O jantar anual dos correspondentes de imprensa credenciados junto à Casa Branca é um acontecimento que faz parte do calendário social da capital dos Estados Unidos. Quase sempre presente, o presidente costuma fazer um discurso recheado de piadas, o que descontrai o clima.
Como Donald Trump não morre de amores pela maioria dos jornalistas, ele não compareceu ao jantar nos quatro anos de seu primeiro mandato, assim como não esteve presente no ano passado, início de seu segundo termo.
Só que desta vez agiu diferente. Não só foi ao Washington Hilton Hotel, onde se realizou o rega-bofe, como levou junto os integrantes do alto escalão de seu governo.
Lá pelas tantas, Cole Tomas Allen, um aparentemente desequilibrado de 31 anos residente na Califórnia, que se hospedara no Hilton dias antes, passou às carreiras pelo esquema de segurança do Serviço Secreto e, portando armas de fogo e facas, correu para a entrada do salão.
Seguiu-se um tiroteio do qual resultou ferido, levemente, um dos agentes. Houve pânico, com diversos convidados se refugiando debaixo das mesas.
Nessa hora, eu estava em casa assistindo um jogo de futebol na tevê. Recebi um telefonema de um dos meus filhos dizendo que estava acontecendo um atentado na Casa Branca – as primeiras informações são quase sempre desencontradas.
Se fosse num dia útil, em horário de funcionamento das bolsas de valores, certamente eu teria zerado minha posição de ações. Eu e milhões de outros investidores em todo o mundo. E o mercado, obviamente, levado um tombo.
Horas depois do incidente, já com tudo esclarecido, Donald Trump compareceu ao auditório de imprensa da Casa Branca e, falando aos jornalistas, tratou de capitalizar o ocorrido. Disse que esse tipo de atentado só ocorre com presidentes bem-sucedidos e comparou-se a ninguém menos do que Abraham Lincoln. Aproveitou também para defender a construção de um salão de bailes na residência oficial, obra faraônica orçada em quase meio bilhão de dólares.
Quando os mercados reabriram na segunda-feira, o tiroteio do hotel Hilton já era notícia velha e não teve influência nas cotações.
Mas nem sempre foi assim.
Dallas, Texas, sexta-feira, 22 de novembro de 1963. O presidente John Kennedy é assassinado quando desfilava em carro aberto pelo centro da cidade.
Naqueles tempos pré-internet, a notícia de que Kennedy fora alvejado mortalmente chegou ao público através das emissoras de rádio e televisão.
Na Bolsa de Valores de Nova York, imediatamente o índice Industrial Dow Jones caiu 3% e os negócios foram interrompidos. Mas não por muito tempo.
Na reabertura, as ações retornaram ao patamar anterior quando houve um consenso de que o sucessor de Kennedy, vice-presidente Lyndon Johnson, seria uma continuidade da administração.
Wall Street sempre foi pragmático nessas horas.
Tarde de segunda-feira, 30 de março de 1981. Ao sair do mesmo hotel Hilton onde agora houve o incidente no jantar dos correspondentes, o 40º presidente dos EUA, Ronald Reagan, sofreu um atentado.
Um jovem de nome John Hinckley Jr., que queria chamar a atenção da atriz Jodie Foster, disparou contra Reagan. Um projétil calibre .22 alojou-se no pulmão do chefe de Estado.
Lembro bem dessa data. Naquela ocasião eu trabalhava em uma distribuidora de valores quando o aparelho de telex da sala de operações cuspiu a notícia: “Gunman shot president Reagan” (Pistoleiro atira no presidente Reagan).
Em Nova York, mais do que depressa, as negociações na Bolsa foram suspensas.
Mais tarde, quando o presidente surgiu em uma das janelas do hospital onde fora internado e acenou para os jornalistas lá embaixo, o mercado foi reaberto. E subiu.
Apenas 44 dias após o atentado contra Reagan, foi a vez do telex matraquear: “Gunman shot Pope John Paul the Second in Saint Peter’s Square”, se referindo obviamente ao papa João Paulo II e à Praça de São Pedro, em Roma.
Se os traders se comoveram com a notícia, a história não registrou. O certo é que os mercados não se mexeram. Papas têm pouco a ver com as bolsas de valores.
Dez anos depois dos atentados contra Reagan e João Paulo II, foi a vez do mercado tomar um tremendo susto.
Nessa ocasião, havia um grande entusiasmo com a política de abertura do secretário-geral Mikhail Gorbachev, líder supremo da União Soviética.
Era o fim do comunismo, da Cortina de Ferro, da Guerra Fria entre Moscou e Washington.
Eis que no domingo, 18 de agosto de 1991, militares russos saudosistas do antigo regime sequestraram Gorbachev.
Supôs-se, na ocasião, que a perestroika (reestruturação) e a glasnost (transparência), políticas que tanto encantavam o Ocidente, tinham ido para o vinagre.
Na noite daquele domingo, o índice S&P 500 da Bolsa de Valores de Nova York, negociado no pregão noturno de Chicago, abriu colado no limite de baixa. E no limite de baixa permaneceu.
O mercado foi salvo pelo gongo. Ou, melhor, por Boris Iéltsin, prefeito de Moscou, que liderou uma revolta popular que acabou resultando na libertação de Gorbachev.
Do limite de baixa, o S&P 500, agora já no pregão de segunda-feira, saltou para forte alta.
Sorte e boa interpretação das notícias são essenciais nessas ocasiões em que os mercados são surpreendidos por fatos imprevisíveis.
Nos anos mais recentes, aqui no Brasil, o acontecimento mais impactante para a Bolsa de Valores ocorreu em 6 de setembro de 2018.
Faltavam 31 dias para as eleições presidenciais, que apontariam o sucessor de Michel Temer.
Vários eram os candidatos que concorriam no 1º turno. Entre eles, Álvaro Dias, Ciro Gomes, Fernando Haddad, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Jair Bolsonaro e Marina Silva.
O capitão Bolsonaro, um dos favoritos, participava de uma passeata na Rua Halfeld, a principal da cidade mineira de Juiz de Fora. Eis que um homem, Adélio Bispo de Oliveira, surgiu em meio aos adeptos do candidato e esfaqueou Bolsonaro no abdome.
Meu irmão, o escritor Sérgio Sant’Anna (1941-2020), matou a charada no ato. Me disse ao telefone:
“Se sobreviver, tá eleito.”
Não é possível saber se Jair Bolsonaro teria vencido a eleição caso o atentado não tivesse acontecido. Mas uma coisa é certa: ele não precisou comparecer aos debates dos candidatos. Estes, por sua vez, ficaram constrangidos em atacar um competidor que se encontrava internado em um hospital de São Paulo, sofrendo horrores e sendo submetido a diversas cirurgias.
Saber interpretar corretamente esses incidentes fortuitos é essencial para quem investe, e principalmente para quem especula, nos mercados de risco. Nem sempre eles acontecem num horário conveniente, como foi o atentado no Washington Hilton.”