Uma civilização inteira morrerá esta noite!
Uma civilização inteira morrerá esta noite!
Por Ivan Sant’Anna
17/04/26
Há pouco mais de uma semana a frase acima foi manchete de quase todos os jornais e sites de notícias.
Pudera, foi pronunciada por ninguém menos do que o presidente dos Estados Unidos, um país que tem meios de fazer cumprir esse terrível vaticínio.
Só que parece ter sido mais um dos incontáveis blefes de Donald Trump.
Nem mesmo Joseph Stalin, Franklin Delano Roosevelt e Winston Churchill, durante a conferência de Ialta (fevereiro de 1945), quase ao final da Segunda Grande Guerra, ameaçaram destruir a civilização alemã, limitando-se os três estadistas aliados a discutir o destino dos criminosos de guerra nazistas.
* * *
Normalmente, quando sou convidado a escrever para um novo veículo de informação, dedico minha primeira crônica a me apresentar para os leitores.
Só que, desta vez, como os diversos mercados, nacionais e internacionais, estão sendo movidos por notícias que nos atropelam a cada momento, resolvi pegar o bonde andando.
É claro que estou me referindo à enésima crise do Oriente Médio, desta vez à guerra entre EUA e Israel, de um lado, e o Irã, do outro.
Mesmo assim vou dedicar parte desta crônica a fazer a tal apresentação.
Para começar, estou prestes a completar 86 anos de idade, pois nasci em 16 de maio de 1940, por sinal um momento da História mais cataclísmico do que o atual.
Tanto é assim que a manchete de uma das edições do jornal O Globo nesse dia de meu nascimento foi “Monstruosa ofensiva germânica”.
As tropas nazistas de Adolf Hitler haviam invadido a França e se aproximavam de Paris.
Comecei a trabalhar no mercado financeiro no longínquo ano de 1958, em plena Era JK.
Em meados da década de 1960 morei nos Estados Unidos, onde cursei a NYU (New York University) num programa especial sobre o Mercado de Capitais.
De volta ao Brasil, fui operador de pregão na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, então a mais importante do país, entre 1968 e 1971. Foi nessa época que ocorreu um dos mais expressivos bull markets (mercado do touro, de alta) de nossa história.
Entre 1972 e 1983, operei no open market. Captávamos dinheiro de pessoas físicas e jurídicas de um dia para o outro (overnight) e aplicávamos esses recursos em títulos do governo, mais precisamente Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional e Letras do Tesouro Nacional.
A partir de 1984 me mudei de armas e bagagens para o mercado internacional de commodities, futuros e opções (os chamados derivativos). Passei a viver na ponte-aérea Rio/Nova York/Chicago.
Nessa época, dei tacadas incríveis e levei não menores bordoadas. O saldo foi uma enorme experiência. Experiência essa que serviu como trunfo na fase seguinte de minha vida.
Em abril de 1995 troquei os números pelas letras. Munido apenas de cara e coragem, decidi ser escritor.
Deu certo: já publiquei 19 livros, 8 (ficções e não-ficções) ambientados no mercado financeiro, sendo o mais conhecido deles, Os Mercadores da Noite. A versão em inglês, The Sunday Night Traders, teve seus direitos de filmagem comprados por uma produtora internacional, devendo a fita ser rodada em 2027.
Escrevi também mais de mil crônicas, a maioria delas sobre o mercado.
Apenas como curiosidade, e para fechar meu currículo, fui roteirista da TV Globo, escrevendo episódios das séries Carga Pesada e Linha Direta.
Agora vamos aos fatos que interessam ao momento atual e que impulsionam, para cima e para baixo, as cotações dos diversos mercados.
Muita gente procura equiparar esta crise à de 1973, aquela que deu origem ao primeiro grande choque do petróleo.
Felizmente, pelo menos para o Brasil, as consequências, em termos econômicos, deverão ser bem menores. A própria alta de preços do petróleo será, em termos percentuais, muito inferior à daquela época.
Na tarde de sábado 6 de outubro de 1973, dia do Yom Kippur, o mais sagrado dos feriados judeus, tropas e aviões do Egito e da Síria, numa ação sincronizada, atacaram o Estado de Israel.
Nos 19 dias que se seguiram, depois de quase perder a guerra, as Forças de Defesa de Israel, com forte apoio americano em armas e munições, reverteram a situação e saíram vencedoras do conflito.
Em represália ao Ocidente em geral, e aos Estados Unidos em particular, os países árabes produtores de petróleo, liderados pela Arábia Saudita, decretaram um embargo, reduzindo consideravelmente suas exportações.
Entre os primeiros dias de outubro e o final do ano de 1973, o preço do barril de petróleo subiu de 3 para 22 dólares, uma alta de inacreditáveis 633% em apenas um trimestre.
Agora em 2026, se tal aumento proporcional se repetisse, o petróleo tipo Brent estaria cotado a US$ 462,00 e o mundo entraria em profunda estagflação, tal como aconteceu na década de 1970.
E por que isso não está acontecendo?
A guerra do Yom Kippur e o embargo que se seguiu ensinaram os países que puderam fazê-lo (como Estados Unidos e Brasil) a prospectar novas reservas.
Naquela ocasião, nós brasileiros importávamos cerca de 80% do petróleo que consumíamos – as reservas da bacia de Campos ainda não haviam sido descobertas. Já os Estados Unidos tinham de importar um terço de seu consumo.
Hoje em dia tanto o Brasil como os EUA são autossuficientes em hidrocarbonetos.
Isso não quer dizer que a situação atual no Oriente Médio não afete os dois países.
Pelo lado americano, o envolvimento direto (ou melhor, o patrocínio) no conflito está causando profundo desgaste do governo Donald Trump. Os consumidores já estão sentindo o prejuízo no bolso ao abastecerem seus carros nos postos de combustível.
Esse desgaste só tende a aumentar, e aumentar muito, quando, e se, os marines resolverem desembarcar em solo iraniano.
O Brasil também será afetado se a guerra persistir. A começar, tal como nos Estados Unidos, com o aumento no preço dos combustíveis.
Outro ponto crítico é a importação de fertilizantes, produto que começa a escassear e, por conseguinte, encarecer.
Resta agora aguardar o desfecho da guerra. Primeiro Donald Trump exigiu que o Irã liberasse o tráfego marítimo no estreito de Ormuz. Depois disse que a obstrução não afetava os Estados Unidos, pois os americanos não importam petróleo nem gás através daquela via. Finalmente Trump decidiu que eles mesmos farão o bloqueio. Sabe-se lá qual será a situação do estreito quando os leitores estiverem lendo este texto.
Como o que mais nos importa é o quanto esta crise possa afetar o Brasil, acho que a conclusão é meio óbvia: desde a nefasta década de 1970, com exceção de alguns contratempos pontuais, nós cada vez mais dependemos de nós mesmos.
Um abraço,
Ivan Sant’Anna