A vida aos 86
A vida aos 86
15/05/2026
Por Ivan Sant’Anna
Quando eu tinha vinte e poucos anos, nem pensava na hipótese de um dia ser octogenário. Era uma meta distante, quase impossível.
Anciãos de 86 anos, idade que estou completando neste mês, eram, no juízo que fazia na época, pessoas que passavam da cama para uma cadeira de balanço, da cadeira de volta para a cama, usando um babador na hora das refeições e tendo como única distração lembrar dos amigos que já se foram e assistir novelas na TV.
Mesmo agora, passar dos 80 não deixa de ser um pequeno desafio. Pois a expectativa de vida de um brasileiro do sexo masculino, segundo os últimos cálculos do IBGE, é de 73,3 anos, o que me coloca na incômoda posição de estatisticamente morto. Morto e enterrado, ou cremado.
Só que o mortinho aqui continua escrevendo suas crônicas, pretende assistir a todos os jogos da Copa do Mundo (e não somente os do Brasil) e, após a Copa, fazer uma viagem a Portugal, Ilha da Madeira, Ilhas Canárias, Inglaterra – onde tenho parentes e amigos – e Escócia.
É bem provável que, em julho e agosto próximos, os caros amigos leitores e leitoras recebam textos redigidos por mim a bordo de um Airbus ou Boeing transcontinental.
Continuo bastante ativo na literatura. Em novembro deste ano lançarei, pela editora Record, Na rota do desastre – um relato da tragédia da Chapecoense, cujo título, como se percebe, é autoexplicativo.
Nessa ocasião, o trágico acidente estará completando 10 anos.
Com esse novo livro, alcançarei a marca de 20 obras publicadas.
Além de Na rota do desastre, tenho outros cinco trabalhos literários prontos, dois deles não ficções sobre futebol, uma coletânea de crônicas sobre o mercado financeiro, uma ficção também ambientada no mercado e, finalmente, outro cuja história se passa no Paquistão e no Afeganistão, países nos quais passei 40 dias pesquisando o Talibã, as plantações de papoula e o tráfico de heroína. Este último chama-se Terra de fronteira.
Portanto, caso morra em breve, ainda abastecerei o mercado literário por um bom tempo, para regozijo de meus herdeiros. E, tomara, dos meus leitores.
O ministro, embaixador, senador e deputado Roberto Campos (1917-2001), com quem tive o prazer de conviver (era um dos melhores amigos de meu pai), costumava dizer que a vida de uma pessoa só vale a pena enquanto ela gosta de estudar e aprender.
Sendo válida essa premissa, vou bem, obrigado. Sou viciado em estudar. Acabo de terminar Os Rothschilds, de Frederic Morton, e passei a ler A guerra civil de Espanha, de Hellmuth Günther Dahms.
Estou também pesquisando sobre as vidas de Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda e Leonel Brizola e o golpe militar (ou revolução, como queiram) de 1964. A ideia aqui é escrever 1965 – a eleição que não existiu, um “relato” sobre as eleições daquele ano, à qual concorreriam os três nomes acima, se ela não tivesse sido cancelada pelo golpe (revolução).
Tudo bem. Isso tudo é fantástico, sensacional. Só que na vida sempre tem um “mas”.
Mas se um AVC me der uma rasteira e, em vez de misericordiosamente dar cabo de mim, dê cabo apenas de minhas faculdades mentais? Me jogue na cama feito um vegetal. Uma ameba.
É aí que entra a precaução que sempre tive. A de gastar menos do que ganhei, mesmo nas ocasiões em que ganhei muito pouco.
Essa poupança (nada a ver com cadernetas, bem entendido) é composta de títulos do Tesouro e ações que pagam bons dividendos.
A construção de um patrimônio post mortem não foi uma tarefa fácil e sofreu diversos percalços, épocas nas quais tive de fazer correções de rota.
Em 1966, quando eu tinha apenas 26 anos e estudava Mercado de Capitais na New York University, fiz um seguro de vida em uma seguradora americana.
Isso garantiria, pelo menos era o que eu pensava, que minha mulher e meus futuros filhos não passassem necessidade até que eles atingissem idade adulta.
Só depois de pagar o tal seguro por quase dois anos é que percebi que o prêmio, em caso de morte (se não me engano, era de algo como 100 mil dólares) não sofreria correção monetária. Ou “cola” (cost of living adjustment), que é como se diz nos Estados Unidos.
Só para exemplificar melhor: cem mil dólares de 1966 equivalem hoje a US$ 1.020.000,00, valor esse que meus herdeiros não receberiam e tão somente os US$ 100.000,00 pactuados naquela ocasião.
Quando percebi a bobagem que estava fazendo, cancelei o seguro e recebi de volta 80% do que havia pago (sem “cola”, obviamente).
Muitos anos mais tarde, fiz um plano de previdência privada em uma instituição financeira brasileira.
Outro tiro n’água.
Passados alguns anos descobri que o pagamento que eu fazia mensalmente não acompanhava nossa inflação. O mesmo ocorria com minha futura pensão. Pior, era a época da hiper, dos choques heterodoxos e das tablitas deflatoras.
O resultado seria o mesmo do seguro americano. Ou até pior.
Foi um sufoco para receber meu dinheiro de volta, mas consegui.
Felizmente eu recolhia ao INSS sobre vinte salários mínimos. E, como seria de se supor, receberia mensalmente vinte salários mínimos após 35 anos de recolhimento.
Em valores de hoje, R$ 32.420,00, 70% do que recebe um ministro do Supremo.
Surgiu a mesma lengalenga: hiper, choques heterodoxos, tablitas deflatoras etc. E, como se tais demônios não bastassem, fator previdenciário e alteração das regras do jogo no INSS.
Recebo atualmente R$ 5.875,78 mensais, valor que dá para pagar meu plano de saúde, a mensalidade do condomínio e absolutamente mais nada.
Felizmente, há muitos e muitos anos eu soube me valer do mercado de capitais. E, melhor do que isso, soube contar com os títulos do Tesouro do Brasil, que pagam as maiores taxas de juros reais do planeta.
Junte-se a isso, um mercado de ações extremamente desenvolvido, com empresas que rendem ótimos dividendos, as chamadas “vacas leiteiras”.
Não que eu queira, é óbvio, mas se vier o tal AVC incapacitante, minha carcaça estará preparada para ele.
Quero encerrar esta crônica de uma maneira positiva. Não por estratégia, mas porque, até que algum acontecimento me prove o contrário, antevejo positivamente o que está por vir. Inclusive porque, tal como disse numa crônica recente, em 2027 meu livro Os mercadores da noite (The Sunday Night Traders, na versão em inglês) se transformará em filme.
Por todas essas razões, ao soprar as 86 velas, às vezes ouso pensar que o melhor de minha vida ainda está para acontecer.
Ivan Sant’Anna.