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A Carta do Mercador #6

A grande farra da Bolsa

A grande farra da Bolsa
22/05/2026
Por Ivan Sant’Anna

As expressões Bull Market (mercado do touro, de alta) e Bear Market (mercado do urso, de baixa) são corriqueiras entre os traders e brokers no Brasil, embora não sejam muito usadas pela imprensa tupiniquim.

Ao longo de minha carreira no mundo das finanças, participei de diversos desses movimentos, mas nenhum deles se assemelhou, em termos de importância e envolvimento do grande público, ao Bull Market 1968/1971 de ações na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, então a mais importante do Brasil. Era lá que se concentrava a maioria dos negócios.

Seria de se supor que, durante o governo João Goulart (1961-1964), a Bolsa iria cair. Afinal de contas, Jango ameaçava nacionalizar empresas estrangeiras, promover ampla distribuição de terras, além de diversas outras “reformas de base”, como, na época, eram chamadas essas medidas.

Acontece que, simultaneamente, as sociedades anônimas foram obrigadas a reavaliar seus ativos, até então lançados em balanços pelo valor histórico.

Uma gigantesca propriedade da Cia. Siderúrgica Belgo Mineira, só para ficar em um exemplo, constava do balanço pelo preço de custo de quarenta anos antes, quando tinha sido adquirida, ainda em mil-réis.

Em função dessa reavaliação, as empresas negociadas em Bolsa deram bonificações formidáveis, do tipo 100 ações por uma ou até mesmo mil por uma.

Sendo assim, uma ação negociada, por exemplo, a Cr$ 100,00 (cem cruzeiros) passou a valer Cr$ 0,10 (dez centavos) após a reavaliação.

Como é muito mais fácil uma ação de 10 centavos passar para um cruzeiro do que uma de 150 cruzeiros passar para 1.500, foi por essa razão que o governo João Goulart foi ótimo para os investidores no mercado de renda variável.

Em 1964, veio o golpe militar (ou Revolução, com “R” maiúsculo, como alguns preferem chamar) que depôs João Goulart.

Afastadas as ameaças socialistas, o normal seria a Bolsa subir ainda mais. Só que o mercado foi surpreendido por uma bull trap (armadilha de touros).

Eis como foi:

Objetivando derrubar a inflação, que em 1963 atingira a marca obscena de 83,2% e ameaçava alcançar 100% em 1964, o governo Castelo Branco, através de seus ministros da Fazenda, Octavio Gouvêa de Bulhões, e do Planejamento, Roberto Campos, seguindo prescrição do Fundo Monetário Internacional (FMI), baixou um pacote de medidas monetárias ortodoxas. Ortodoxas e amargas. As taxas de juros subiram às alturas.

Surgiu uma quebradeira no setor privado da economia. Como seria de se supor, a Bolsa levou um tombo.

O pacote Campos/Bulhões deu certo e a inflação em 1967 caiu para 24%, nível considerado baixo na época.

No início desse ano, eu retornei de um curso de Mercado de Capitais na New York University. Encontrei ações negociadas na Bolsa com P/L 1. Ou seja, com preço igual ao lucro anual da empresa.

Iniciou-se a Grande Farra da Bolsa, farra essa que iria durar até julho de 1971.

Grande parte da classe média brasileira se envolveu naquele Bull Market.

Para minha sorte, tão logo cheguei dos EUA, fui ser operador de pregão na Bolsa do Rio, situada no prédio da Praça XV, nº 20.

Quase seis décadas mais tarde, me lembro de cada detalhe daquela época mais do que saudosa.

O pregão era irradiado e televisionado para todo o país. Nas ruas das grandes cidades, era corriqueiro ver pessoas andando com radinhos de pilha encostados ao ouvido, escutando o vaivém (mais “vai” do que “vem”) das cotações. Os jornais dedicavam à Bolsa páginas inteiras de suas edições.

Se os investidores Brasil afora ganhavam dinheiro fácil, mais fácil ainda era para nós, os “gravatinhas” (como éramos chamados por um colunista social do Rio) da Bolsa, fazendo day trades (“compra e venda” ou “venda e compra”) no mesmo dia.

Naquela ocasião eu assistia a todos os jogos do Fluminense, fossem onde fossem.

Se o Tricolor jogasse em, digamos, Salvador, contra o Bahia ou o Vitória, eu pegava um avião logo após o pregão, que se encerrava na hora do almoço, e voltava depois da partida, nos voos noturnos (à época chamados de “Corujões”), a tempo de estar na Praça XV na manhã seguinte.

Não raro eu me juntava a outros tricolores e fretava um jatinho para acompanhar o Flu.

Certa ocasião chegamos a fretar um Boeing 737 da Vasp para assistir a um jogo contra o Internacional no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre. Foi até gente que nem torcia pelo Fluminense. Só pela farra.

Pouquíssimos eram os operadores que tiravam férias – seria um desperdício de dinheiro. Mas a gente sabia aproveitar os feriadões: Carnaval, Fim de Ano, Semana Santa, Finados etc.

Roma, Paris, Nova York, Las Vegas e Punta del Este eram nossos destinos preferidos. Ida e volta na primeira classe da Varig ou da Pan Am.

Acontece que não há Bull Market que dure para sempre. E aquele não foi diferente.

Com o movimento de alta atingindo três anos, alguns papéis ficaram caros. Outros, caríssimos.

Havia também os IPOs (Oferta Pública Inicial), que se sucediam um após o outro.

Em todo grande Bull Market do mercado de ações (o maior exemplo disso foram os Roaring Twenties – Esfuziantes Anos Vinte – da Bolsa de Valores de Nova York), há um momento em que a entrada de novos papéis no mercado supera, em volume de dinheiro, a chegada de novos investidores.

Na década de 1920, nos EUA, tudo acabou com um tremendo crash, que ocorreu na Black Tuesday, 29 de outubro de 1929.

Aqui no Brasil não dá para se precisar o momento exato da virada da Bolsa. Simplesmente porque não houve um crash.

Por volta de julho de 1971, o mercado começou a andar de lado, foi escorregando devagarinho e devagarinho caiu durante quase dez anos.

Se nos Estados Unidos à queda do mercado seguiu-se a Grande Depressão, que durou até o início da Segunda Grande Guerra, aqui no Brasil a queda foi seguida pelo “Milagre Econômico”.

Isso mesmo: a Bolsa subiu primeiro; depois veio o milagre. Este durou até o final de 1973, por ocasião da Guerra do Yom Kippur e do início do primeiro choque do petróleo.

A maior parte dos operadores de pregão da Bolsa do Rio em 1971 já nos deixou. Mas, de vez em quando, encontro um ou outro sobrevivente. Aí a gente, como todo bom velhinho que encontra um parceiro, conversa sobre os “bons tempos”.

Um dos operadores daquela época, um uruguaio chamado Francisco Daniel Espiñera, mais conhecido como Chicão, jamais especulava ou investia em ações. Mas era um craque em detectar o fim de um Bull Market.

No Velho Amorim, restaurante onde a gente costumava almoçar após o pregão, ele chegava e dizia:

“Acabou o Trem da Alegria.”

Ivan Sant’Anna.

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