Investidores e especuladores
Investidores e especuladores
07/05/2026
Por Ivan Sant’Anna
Em meados de 1976, o Banco Central do Brasil promoveu uma maxidesvalorização do cruzeiro.
Como, à época, o país emitia ORTNs (Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional) com cláusula de correção cambial, as instituições financeiras que tinham esses títulos em carteira deram uma baita de uma tacada.
No feriadão de Finados daquele ano, um grupo de profissionais que haviam se beneficiado dessa máxi resolveu comemorar em Las Vegas.
Eu, que era diretor e maior acionista da Fator Corretora, empresa ligada ao grupo Independência, participei dessa viagem, que reuniu umas quinze pessoas, todos homens.
Naquela época, os cartões de crédito brasileiros não eram aceitos no exterior. Graças a essa proibição, só se podia perder em cassinos lá fora aquilo que se tinha em dinheiro vivo – dólares em cash.
Com exceção de um ou outro, quase todo mundo perdeu. Mas nada que anulasse o ganho com a máxi.
Na véspera de nossa volta ao Brasil, o banqueiro A. J. A. C., grande amigo meu, me chamou para uma conversa em particular.
“Acho melhor você se desvincular do Banco Independência”, ele disse. E completou: “A qualquer momento eles vão sofrer intervenção do Banco Central.”
Já no Rio, embora eu não tenha rompido relações de negócios com o Independência (isso me parecia uma traição), comecei a desalavancar a Fator a tal ponto que chegou um momento no qual nosso caixa era maior do que nossa carteira de letras de câmbio e CDBs daquela instituição.
Virou o ano e nada aconteceu.
Mas, na terça-feira, 10 de maio de 1977, o mesmo A. J. A. C. e outro amigo, A. D. C. C., me chamaram para almoçar.
“A intervenção no Independência vai ser amanhã às 17 horas”, um deles me disse.
Temendo que o Banco Central incluísse a Fator no processo, fretei um jatinho e voei para Brasília.
Já na capital federal, fui direto para a sede do Banco Central conversar com o diretor de Mercado de Capitais, Sérgio Ribeiro, que eu conhecia há bastante tempo. Mostrei a ele um balancete da Fator com nossa situação confortável de caixa.
Entre outras coisas, Ribeiro, embora não confirmasse nem desmentisse a intervenção no Independência, disse que, por lei, a Fator não era obrigada a pagar os títulos daquele banco que havíamos vendido para clientes.
Tal e qual A. J. A. C. e A. D. C. C. haviam informado, às 17 horas da quarta-feira, 11 de maio, uma tropa de choque do BC entrou no prédio onde funcionava não só o Banco Independência como também a Fator. Lacraram as instalações do banco, mas não as da corretora.
Naquele dia eu voltei para casa com certo alívio, alívio que normalmente acontece quando ocorre um fato ruim, mas longamente esperado. Levei comigo a última posição de títulos do Independência vendidos para clientes da Fator e ainda não vencidos.
Verifiquei que o total dessas vendas em aberto era ligeiramente menor do que minha posição financeira particular.
Foi aí que decidi que, embora não fosse obrigado a isso, iria pagar todo mundo. Meus clientes eram em sua maioria pessoas físicas, entre elas diversos profissionais de futebol, inclusive alguns tricampeões do mundo. Eles, a meu ver, haviam comprado títulos Ivan Sant’Anna e não títulos Independência.
Consultei minha mulher. Nós éramos casados havia 11 anos. Eu tinha 36 anos de idade; ela, 27. Tínhamos dois filhos: dez e sete anos.
“Você aceita que a gente perca todo nosso patrimônio e volte à estaca zero?” E expliquei os motivos.
Ela topou na hora.
No dia seguinte, liguei para os investidores e disse a cada um deles que, nos vencimentos dos títulos, eu os reembolsaria.
E assim procedi.
Para pagar todo mundo, fui obrigado a vender a carta-patente da Fator. Passei a trabalhar como broker (corretor) de uma distribuidora de valores.
Qual não foi minha enorme decepção quando nenhum daqueles clientes a quem eu salvara de prejuízos quis saber de fazer negócios comigo.
Mais tarde, com o passar do tempo, eu lhes daria razão. Se fora preciso pagar do meu bolso os papéis que eles haviam adquirido, quem sabe em outra oportunidade eu não teria condições financeiras de fazer isso.
Só que no início fui tomado por grande indignação. E resolvi não ter mais nenhum investidor como cliente. Apenas especuladores. Apenas especuladores riquíssimos. Gente que considerava o mercado não mais do que um jogo. Um jogo divertido.
Comecei a operar nos mercados internacionais de futuros e de opções, os chamados derivativos, negociados em Chicago e Nova York.
Com um desses novos clientes, o mesmo A. J. A. C. que me informara a respeito da intervenção no Independência, eu travava conversas do tipo:
“Tem aqui uma call fora do dinheiro de S&P 500”, eu dizia, me referindo a uma opção de compra de exercício improvável de um índice futuro de ações negociadas na Bolsa de Valores de Nova York. “É difícil dar exercício. Mas, se der, é a porrada do ano. Que tal aplicar 50 mil dólares?”
“Eu lá sou homem de 50 mil?”, ele respondia, dando uma risada gostosa. “Joga (vejam o detalhe do verbo) 200 mil. Mas não me venha com lucro de cem por cento. É pra multiplicar o dinheiro por dez ou perder tudo. Me liga quando tiver um resultado definitivo.”
Se, após uma semana, os 200 mil dólares virassem pó, ele dizia:
“Tá bom, R….. (ele me chamava pelo apelido da época de garoto em Belo Horizonte), coragem” – falava como se eu tivesse sido o perdedor, e não ele. “Quando tiver uma nova barbada (a ‘ironia’ nas palavras era quase imperceptível), liga para mim.”
Havia outro invest… ooops, especulador, O. J. L. S., matemático de profissão, que gostava de brincar com os números.
Digamos que ele tivesse comprado 50 contratos de café futuro em Nova York a US$ 1,9974 a libra-peso. Meia hora depois ele me ligava:
“Não me diga a cotação, Ivan. Eu só quero saber se o primeiro algarismo é par ou ímpar.”
Evidentemente, se o primeiro algarismo fosse par era sinal de que o café passara de dois dólares e ele estaria ganhando muito dinheiro. Se fosse ímpar, ele poderia estar perdendo ou ganhando no máximo 26 milésimos de centavo por libra-peso.
“Agora quero saber se o penúltimo algarismo é maior ou menor do que sete” e assim ele ia até deduzir qual era a cotação do momento.
De todos os especuladores dos quais fui broker, o que jogava mais pesado era A. G. F.
Ele costumava me ligar de sua casa em Connecticut, na Costa Leste dos Estados Unidos, de sua casa de praia nas Bahamas ou de seu haras no sul do Brasil.
“Ivan, compra 500 contratos de prata na abertura e vende no fechamento, quaisquer que sejam os preços. Depois me diga apenas quanto eu ganhei ou perdi.”
De todas as etapas e funções nas quais exerci meu ofício no mercado financeiro, essa de broker (“crupiê” seria o termo mais adequado), foi sem dúvida a mais divertida.
Sinto uma enorme saudade daqueles tempos.