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A Carta do Mercador #2

Pane seca na aviação

Pane seca na aviação
24/04/2026
Por Ivan Sant’Anna

“Durante dezenas de milhões de anos, resíduos de organismos marinhos – e de matéria orgânica terrestre levada ao mar pelos rios – foram sendo depositados em bancos de areia nas bacias sedimentares dos continentes e em suas margens continentais.

À medida que depósitos adicionais se acumulavam na parte de cima, a pressão nas camadas inferiores aumentava. Vindo de baixo, o calor emanado do centro da Terra cozinhou lentamente aquela massa orgânica prensada, dando origem ao petróleo. Este, uma vez formado, fluiu para a superfície, por ser menos denso do que a água salgada que impregnava as fendas de argila, a areia e as rochas porosas que constituem a crosta terrestre.

Nessa trajetória para cima, parte desses resíduos fósseis tornou-se presa de armadilhas formadas por argila impermeável e por camadas rochosas impermeáveis. Na escuridão dessas crateras, aquele líquido negro e viscoso permaneceu intocado ao longo dos tempos.

Surgiram então os homens. Em seus primórdios, eles já se deparavam com petróleo ao perfurar a superfície da Terra – em inúmeros pontos do globo terrestre, o mar havia recuado – em busca de água. Milênios mais tarde, os chineses passaram a usá-lo como combustível nos campos de sal. Mais recentemente, no século XII, também na China, equipamentos de perfuração atingiram profundidades de até mil metros.

No início da segunda metade do século XIX, um aventureiro americano de nome Edwin L. Drake, que indevidamente se intitulava coronel, descobriu uma dessas cavidades contendo combustível fóssil junto a um regato da Pensilvânia que, coincidência ou não, chamava-se Oil Creek.

Essa descoberta marcou o início da Era do Petróleo. Embora não mais do que um pequeno lapso na história da civilização, já que as reservas conhecidas até hoje deverão se esgotar no final do século XXII ou no início do século XXIII, esse lapso é o nosso tempo.

Nele nasceram nossos avós. Nele morrerão nossos netos.”

O texto acima é parte da introdução de meu livro O Terceiro Templo – Os Conflitos Árabe-Israelenses e os Choques do Petróleo, publicado pela editora Objetiva em 2015.

Como se pode perceber, o título é auto-explicativo.

O assunto “petróleo” sempre me interessou. E esse interesse só fez aumentar depois que li The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power, de Daniel Yergin (em português chama-se O Petróleo: uma História de Ganância, Dinheiro e Poder), uma verdadeira Bíblia sobre o tema.

Outro dia, conversando com um analista do mercado futuro de petróleo, ele se disse surpreso com a “pequena alta” alcançada pelas cotações na crise atual, algo em torno de 40% desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em 28 de fevereiro. Muito menos do que em situações análogas anteriores.

Além disso, o barril de petróleo tipo WTI (West Texas Intermediate) está sendo negociado em backwardation na bolsa de derivativos Nymex, em Nova York. Ou seja, quanto mais longo é o preço futuro, mais barato é cotado.

Significa que ninguém faz muita fé no prolongamento desta crise. Os americanos porque sabem que Donald Trump não vai continuar dando tiros no próprio pé a sete meses das eleições de meio-termo para o Congresso. Os iranianos porque sabem que, se suas exportações de petróleo pararem por completo, o país ficará totalmente sem divisas, inclusive para adquirir armamentos.

Por outro lado, o abastecimento dos diversos subprodutos de petróleo está sofrendo interrupções que poderão trazer sérios danos às economias de alguns países, principalmente os europeus.

O mais importante desses gargalos está ocorrendo com o querosene de aviação (jet fuel). A prevalecer o atual ritmo de abastecimento e consumo, por volta de agosto algumas empresas aéreas (principalmente europeias, repito) poderão ser obrigadas a cancelar voos.

Evidentemente que, no auge da estação de férias do hemisfério norte, se o tráfego aéreo sofrer interrupção, o prejuízo se estenderá às cadeias de resorts turísticos.

Entre o início de julho e o final de agosto, o movimento nos aeroportos europeus cresce substancialmente, seja de pessoas viajando para fora, inclusive para os tais resorts, seja de turistas chegando das Américas e da Ásia para visitar o Velho Continente.

Um aspecto interessante do mercado de commodities é que o preço delas não sobe apenas quando há falta. O MEDO DE QUE VENHAM A FALTAR já basta para trazer pânico aos compradores.

Só para pegar um exemplo marcante, entre 1971 e 1974 e entre 1979 e 1980 ocorreram dois tremendos bull markets (mercados do touro, de alta) de açúcar, produto à época negociado na Cocoa, Sugar and Coffee Exchange (CSCE) em Nova York.

Naquelas duas oportunidades, os grandes consumidores do produto (Coca-Cola, PepsiCo e Nestlé, por exemplo) saíram comprando tudo que podiam, independentemente de preço, e as cotações subiram, respectivamente, 510% e 532%.

Agora, mesmo que os Estados Unidos e o Irã assinem um acordo de paz, ninguém terá convicção que o tratado será para valer. As companhias aéreas, por exemplo, vão comprar o máximo possível de jet fuel.

Antes do início da atual crise, o mercado de petróleo estava deprimido, com os consumidores operando hand to mouth (comprando o mínimo possível), na expectativa de queda dos preços.

Em suas reuniões, a OPEP estabelecia cotas máximas de produção de seus membros, temerosas de que a cotação do barril descesse para níveis aviltantes.

Agora, o cenário mudou completamente. Os níveis de estoques estratégicos dos países deverão ser aumentados.

Com a indústria de transporte aéreo, o cenário não será diferente. Após terem vivido esse risco de falta do produto, muito provavelmente os tanques subterrâneos de querosene de aviação situados nos aeroportos passarão por ampliação.

Os próprios aviões manterão seus tanques permanentemente cheios assim como lotados até a borda estarão os caminhões-tanque que abastecem as aeronaves.

Coisa semelhante ocorreu na grande crise do petróleo dos anos 1970 quando os consumidores dos diversos países enchiam os tanques de seus carros sempre que a agulhinha do marcador de combustível descia um pouco.

Medo de que vá faltar querosene, de que haja uma pane seca na aviação, será a ordem do dia nos próximos meses.

Um forte abraço,

Ivan Sant’Anna

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